quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Estágio III - Orientações para Observação do Espaço Escolar


Área de Ensino de História – Estágios Docentes
Orientações para Observação do Espaço Escolar


Como primeiro momento do estágio docente em História, os alunos são solicitados a cumprir um determinado número de horas de observação do espaço escolar. Esse texto busca problematizar esta tarefa de observação, levantando algumas possibilidades de seu exercício. Importa salientar que, como diversas outras competências que interferem na construção do sujeito como professor, a observação é algo que deve ser aprendido. Os objetivos e propósitos desse período de observação são diversos. Dois se destacam:
1) possibilitar ao estagiário a observação da dinâmica de funcionamento da escola, o que implica considerar como observação desde o primeiro momento de contato, buscando entender as lógicas que regem a aceitação (ou não) do estagiário, os trâmites exigidos, os diversos profissionais que entram em jogo nesse processo, até o momento da despedida, quando do encerramento do estágio. Ao ingressar pela primeira vez na escola, o estagiário deve exercer aquilo que em Antropologia é chamado de exercício de estranhamento. Tudo aquilo que causar surpresa deve ser anotado, embora por vezes se trate de rotinas correntes no espaço escolar. O estagiário deve indagar-se: porque as coisas acontecem dessa forma? O que está em jogo aqui? Como se chegou a este tipo de prática?
2) possibilitar ao estagiário uma observação das turmas onde irá exercer sua prática de ensino, ou seja, possibilitar que a observação funcione como uma coleta de dados cujas informações, uma vez analisadas, possibilitarão uma prática de ensino mais produtiva. Isto significa poder contar com o conhecimento adquirido das ações e interações observadas em sala de aula, como um elemento precioso para o planejamento do ensino de História que será desenvolvido.
Como se aprender a observar?
Essa aprendizagem se refere a adquirir algumas habilidades, uma vez que não envolve apenas olhar, no sentido da percepção visual, mas há toda uma reflexão que acompanha a ação. Assim, observar implica fazer boas perguntas (o observador vai questionando o que vê), e interpretar as respostas (posteriormente, à luz da teoria ou da experiência acumulada na vida). Também implica em ser bom ouvinte, adaptar-se às situações inusitadas que possam ocorrer, ter uma noção clara do que está buscando, ou seja, que tipo de informações está querendo colher.
Aprender a observar refere-se também a fazer o registro das observações, sistematizá-lo, proceder à análise dos dados colhidos no ambiente escolar, tanto em sala de aula como fora dela. Isso significa também cotejar as informações obtidas através de entrevistas ou documentos com a realidade das ações observadas. Em outras palavras, entrevistar alunos, ler documentos da escola. Assim como a ação docente em sala de aula (na interação entre professor, alunos, conteúdo e ambiente,) revela uma concepção de aprendizagem, é importante que o aluno estagiário tenha clareza de sua própria concepção de aprendizagem. Isso implica uma reflexão acerca de si mesmo (como o aluno estagiário aprende).
Partimos do princípio de que “o aluno não é uma tabula rasa que nada sabe, mas alguém que chega à escola com muitos e diversos conhecimentos, os quais precisam ser organizados, enriquecidos e desenvolvidos em grupo; de que todos os alunos sabem coisas, mas coisas diferentes e de formas distintas; de que a aprendizagem não é produto do acúmulo de informações, mas um processo que se modifica e se enriquece por estruturação permanente; de que o professor não é o saber, mas um mediador do saber, que procura criar as melhores condições de intervenção na construção e no desenvolvimento da aprendizagem do aluno”.(Caimi, 2001, p.5)
Com relação à observação da escola, sugerimos que o estagiário tenha atenção aos seguintes pontos: Quais as estruturas de exercício de poder que são possíveis de identificar na escola? Qual a função de cada um dos profissionais (porteiro, servente, professor, direção, supervisão, alunos, etc.)? Qual o desenho da arquitetura escolar? Que conclusões podemos tirar relacionando a arquitetura escolar com o exercício do controle sobre alunos e professores? Quais os locais da escola reservados aos alunos e aos professores? Como se dá o estabelecimento destas fronteiras, e sua manutenção? Quais as áreas em que os alunos ficam mais distantes dos mecanismos de controle? O que está escrito nos banheiros masculinos e femininos reservados aos alunos? Ao redor da escola há locais de concentração dos alunos? Há algum local na escola em que você se sente um tanto constrangido de circular? O que foi possível concluir observando o conselho de classe? Qual a conversa que acontece na sala dos professores? Que avisos estão afixados nas paredes da escola, dirigidos aos alunos e aos professores?
Com relação à observação da turma, sugerimos que o estagiário tenha atenção aos seguintes pontos: Como é a proporção entre meninos e meninas? Qual a distribuição das idades? Como é a distribuição dos alunos na sala? O conjunto de alunos da turma configura um grupo unido e homogêneo, ou nele há subgrupos? Há um clima de coleguismo entre os alunos, ou há disputas entre indivíduos e grupos? Nos intervalos das aulas, quem sai da sala, e quem nela permanece? Os alunos se comportam da mesma maneira em todas as aulas, com todos os professores, ou há diferenças importantes de comportamento? Como ocorrem as relações entre eles na aula de Educação Física? E na hora do recreio, como a turma se comporta? Como você foi recebido pela turma? Houve alguma situação constrangedora? Quais os assuntos de interesse principal dos alunos? De onde os alunos são originários? Qual a situação econômica dos alunos?
Tenha em conta que quanto mais conhecer os alunos, quanto melhor escutar o que dizem os alunos, melhor poderá pensar seu planejamento de ensino.
Texto elaborado pelos professores Susana Schwartz Zaslavsky e Fernando Seffner, em agosto de 2005, para uso em sala de aula nas disciplinas de docência em História, a partir de texto de autoria de Susana Schwartz Zaslavsky e Fani A. Tesseler, professoras da Prática de Ensino em História da FAPA - Faculdades Porto-Alegrenses.
Material cedido pela professora Cláudira

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